“Nem por um momento adormeceu verdadeiramente”

O filósofo e escritor francês é autor do romance “Os últimos Dias de Charles Baudelaire”, nele descrevendo uma noite de insónia:

“Nunca dormiu muito. E até onde a sua memória pode chegar, lembra-se que sempre considerou o sono uma espécie de naufrágio que precipita a alma da pessoa adormecida num mundo maléfico e negro. Agora, no entanto, é ainda mais. É uma recusa total. Uma reticência definitiva. É como uma obstinação da consciência, empinada à beira do abismo e das ameaças que aí entrevê, ao recusar a abdicação. E o facto é que, desde o seu regresso a este quarto, bocejou, dormitou, pestanejou, fechou os olhos – mas nem por um momento adormeceu verdadeiramente. Confusão de uma alma que, na constante lucidez em que se mantém, perde as suas coordenadas habituais. Se sabe ainda a hora, é ao seu ouvido que o deve, aos vagos rumores da rua que sobem até à sua cama. Um sopro. Um clamor. Uma conversa entre mulheres à janela, que indica que é manhã. Um latido ao longe, que atesta que o dia chegou ao fim. Ou essa qualidade de silêncio extremo, quase aveludado, que só pertence, ele sabe-o, à penúltima hora da noite”.

In Bernard-Henri Levy, Os últimos Dias de Charles Baudelaire, Lisboa 1989

 

Partilhar: