“Ninguém conseguia dormir”

É esta a primeira frase do mais famoso romance do escritor norte-americano, Norman Mailer, “Os Nus e os Mortos”, que relata a experiência do próprio como militar das forças aliadas nas Filipinas, durante a II Guerra mundial. Na guerra é muitas vezes difícil dormir, tantos são os perigos e preocupações, o que deve ser lembrado num mundo que nos últimos 75 anos tem tido guerras mas tem sabido evitar uma nova guerra global.    

“Ninguém conseguia dormir. Assim que alvorecesse, as lanchas de assalto seriam lançadas ao mar e a primeira vaga de soldados cavalgaria  a rebentação e atacaria a praia de Anopopei. Por todo o comboio, em todos barcos, sabia-se que dentro de poucas horas muitos deles estariam mortos. Um soldado estendido num beliche fecha os olhos, mas  permanece acordado. À sua volta, como o marulhar da rebentação, ouve os murmúrios de homens que dormem intranquilos. ‘Não vou conseguir, não vou conseguir’, grita um a sonhar, e o soldado abre os olhos e olha lentamente em volta do porão, o olhar a perder-se por entre o intricado emaranhado de redes e corpos nus e equipamento oscilante”.

in Norman Mailer, Os Nus e os Mortos, Dom Quixote, Lisboa 2008