“O corpo nunca tinha descanso”

O escritor britânico de origem indiana Salman Rushdie inicia o seu romance, Shalimar, o Palhaço, com a perturbação do sono da personagem India.  “Aos  vinte e quatro anos, a filha do embaixador dormia mal com aquelas noites quentes, sempre iguais. Acordava com frequência e, mesmo quando o sono chegava, o corpo nunca tinha descanso, agitando-se e esbracejando como que a tentar libertar-se de umas terríveis grilhetas invisíveis. Por vezes, gritava de uma maneira assustadora, numa língua que não conhecia (…) Felizmente que esses períodos agitados em que falava a dormir eram breves e, quando acabavam, ela caía, durante algum tempo, num estado de exaustão isento de sonhos, toda suada e ofegante. Depois, abruptamente, voltava a acordar, atordoada, convencida que estava um intruso no quarto. Não havia intruso nenhum. O intruso era uma ausência, um espaço vazio na escuridão”

In Salman Rushdie, Shalimar, o Palhaço, Dom Quixote, Lisboa 2006

Partilhar: