O sonho é um grande escritor

A escritora Maria Gabriela Llansol registou muitos dos seus sonhos, agora publicados pela primeira vez no livro “O sonho é um grande escritor”, integrando o Livro de Horas VII da autora, editado em 2020 pela Assírio & Alvim.

O iSleep publica um dos sonhos de Maria Gabriela Llansol, que a escritora registou com as datas de 20-21 de março de 1970.

“1.Entro na sala de jantar (em Lisboa); como costumava, a senhora Irene cose ao longe. Uma figura está deitada sobre  a mesa, de cabeça pequena, o braço decepado

(actualmente há  perto da minha cama uma mulher cujo braço termina aguçando-se)

Vêm-me dizer que a figura me acusa de a ter morto.

Estou na cozinha, em Lisboa, e encho-me de pânico. Então, como tenho sonhado já durante toda a minha vida, lembro-me de que posso deslocar-me através do ar, e voo da varanda. Cheia de calma, um pouco sonolenta, flutuo.

2. À porta de uma sala de espectáculos que já começou a funcionar. Há uma interdição qualquer que, dentro de mim, me impede a entrada. Uma rapariga dirige-se ao A [ugusto], pedindo-lhe uma decisão ou um esclarecimento para a condução da greve. Eu digo que ele não pertence à Comissão; a rapariga afasta-se com ele para junto de uma porta (parece que está num vão de escada) e beija-o enquanto lhe explica o sucedido. Para ela, beijar é falar, e vice-versa. Eu olho de longe, complacentemente. A rapariga está vestida de vermelho, parece ter a minha mala vermelha, em que uma pele exterior parece proteger o veludo vermelho e servir-lhe de couraça.

A certa altura diz-se que na sala cheira mal, há lá bibliotecários e pedreiros. Eu respondo: — é como misturar livros com pedras. A escrever esta parte do sonho fui censurada. Esqueci-me”.

In Maria Gabriela Llansol, O sonho é um grande escritor, Livro de Horas VII, Assírio & Alvim, Lisboa 2020,