“Passei a dormir com um caderno ao lado para me lembrar dos sonhos”

Jacinto Lucas Pires 1

O escritor Jacinto Lucas Pires diz que a partir dos  17 anos bastou a presença física de um caderno ao lado da cama “para que os sonhos não se desmanchassem logo” . Também argumentista e realizador de cinema destaca como filmes  oníricos “Amarcord” de Fellini e “Lágrimas e Suspiros” de Bergman.       

A literatura está cheia de referências ao sono e ao sonho. Na sua opinião, qual a razão de tantos escritores os retratarem?

É uma maneira de se tentar dizer o que não é dito. O que não está no mundo, acordado, à mostra. Procurar o mistério que define cada pessoa, cada cidade, tem de passar com certeza por uma investigação dos sonhos, no sentido mais e menos metafórico.

Qual a passagem literária sobre o sono ou o sonho de que mais gosta?

Gosto especialmente dos sonhos nos romances e nos contos de Roberto Bolaño. São sonhos loucos, desvairados, sim, mas também incrivelmente nítidos; sonhos mais afiados do que a vigília e que, aos poucos, com esta se vão misturando, confundindo.

Nos seus livros, o sono e o sonho têm sido motivo de inspiração? 

Não me lembro de usar ideias ou motivos que tenha sonhado. Não tenho o dom dos realistas mágicos!… Mas escrevo sonhos. São um palco dentro da cabeça das personagens. Escrever sonhos sugere uma escrita mais por dentro da linguagem, se a expressão é possível, por baixo da pele das palavras. Os sonhos são difíceis. Alguns escritores escrevem sonhos “para fora”, como parábolas ou quase, o que me parece um erro, ou melhor, uma falsidade. Acho que os sonhos são o mundo a cair no “para dentro” de nós, e isso é muito específico, e muito delicado também. Por isso é que nos grandes sonhadores,  ou melhor, nos grandes contadores de sonhos,  descobrimos ao mesmo tempo o inesperado e o reconhecível.

É também argumentista e realizador de cinema. Há alguma cena de um filme que envolvam o sono ou o sonho que destaque? 

Fellini, Fellini, Fellini! “Amarcord” — o filme todo. Mas também “A estrada”: não sendo um filme “onírico”, tem a estrutura “mítica” dos sonhos. Em “Lágrimas e suspiros” de Bergman, o deitar das crianças acompanhado pelo “sonho” acordado do animatógrafo caseiro.

Acontece acordar a meio da noite com uma ideia? Costuma registá-la? 

Não. Mas, quando tinha aí 17, 18 anos, não me lembrava dos sonhos, ao contrário dos meus amigos, e passei a dormir com um caderno ao lado. Espantosamente, o truque funcionou. Bastou a presença física do caderno para que os sonhos não se desmanchassem logo. Pensando bem, acho que há algo de muito parecido entre escrever e sonhar. Sonhar de olhos abertos, testemunhando o que se vê.

A que horas gosta mais de escrever?

Ao fim da tarde ou à noite.

O que pensa da expressão Deus não dorme?

Talvez seja uma expressão que se usa quando falta sonho.

Já houve situações na sua vida em que o sono tenha sido bom conselheiro? Em que medida o foi? 

Sem dúvida. Mas acho que não é mensurável.

Adormece facilmente? Já teve insónias? É mais “coruja” ou “cotovia”? 

Adormeço facilmente, sim, mas sou noctívago.

É sensível aos comportamentos de higiene de sono, como não variar muitos os horários de deitar, não beber café, etc?

Não muito. Não vario muito horários, até porque tenho filhos pequeno,  e o café não me estraga o sono.

Tem alguma história divertida, pessoal ou profissional, com o sono ou a falta dele?

Não. Divirto-me sempre com a pergunta clássica: “Estás a dormir?”

Pode contar-nos um sonho profundamente fantasioso que tenha tido?

Teria de escrever um romance!

 

 

 

 

Partilhar: