A primeira mulher neurologista em Portugal tem 86 anos e vive em Goa

Goa
FOTO: CLÁUDIO

 

Adélia Costa foi a primeira mulher em Portugal a obter a especialidade de neurologia, atribuída pela Ordem dos Médicos em 1958. Lembrar a sua figura é a forma especial  de assinalar o Dia Internacional da Mulher que se comemora no próximo domingo 8 de Março.

A médica neurologista, hoje com 86 anos, sofre de vários problemas de saúde e está acamada, apurou o iSleep mas continua a viver em Pangim, capital do Estado indiano de Goa, onde reside há mais de 50  anos.

Nascida a 27 de Agosto de 1928 na aldeia de Loutolim, em Salcette,  na Goa portuguesa, filha de pais goeses, Adélia Costa foi a primeira mulher em Portugal a obter a especialidade de neurologia, atribuída pela Ordem dos Médicos em 1958 e a exercer prática clínica na área.

A neurologista é a quarta filha de uma extensa família de nove irmãos. Fez a instrução primária em Loutolim e depois o liceu em Pangim. Iniciou estudos superiores  na Escola Médico Cirúrgica de Goa, onde concluiu o 2º ano. Aos 20 anos obtém transferência  para a Faculdade de Medicina de Lisboa, onde se licencia em 1952  e é colega de Balcão Reis, Fernando Paredes e Jorge Girão. No mesmo ano, ingressa no Internato Geral dos Hospitais Civis de Lisboa, onde trabalha com Carlos George e Sacadura Bote.

As jovens licenciadas em medicina, num país conservador e em ditadura,  escolhiam especialidades médicas consideradas socialmente mais adequadas ao universo feminino, como ginecologia e pediatria. Mas Adélia Costa decide-se pelo  caminho pioneiro. Opta pela especialidade  de Neurologia e inicia o internato da especialidade em 1955 no Serviço de Neurologia do Hospital dos Capuchos,  então dirigido por Diogo Furtado e onde tem como colegas Miranda Rodrigues e Orlando de Carvalho.

Em 1958 realizou o exame para obter o título de especialista em Neurologia pela Ordem dos Médicos. Já com este diploma trabalha primeiro no Hospital Júlio de Matos, onde João dos Santos e Seabra Diniz sãos os seus mentores. Cimenta a prática clínica e interessa-se também pela electroencefalografia. Mas as raízes goenses chamam-na. Concorre ainda em 1958  à vaga aberta de neuropsiquiatria no Hospital Mental de Goa, dois anos mais tarde baptizado de Hospital Abade Faria (o goês que difundiu o hipnotismo no Séc. XIX, com clientes famosos em Paris e que inspirou o romance “O Conde de Monte de Cristo” de Alexandre Dumas ). Hoje, o antigo Hospital Abade Faria é o moderno Institute of Psychiatry and Human Behaviour.

Adélia Costa exerce funções durante dois anos no Hospital Abade Faria mas emerge uma nova vontade. Estuda afincadamente e regressa a Lisboa em 1962 para fazer um novo exame na Ordem dos Médicos, desta vez obtendo o título de especialista em psiquiatria. Regressará a Goa em 1963 e aqui exercerá clínica em neurologia e psiquiatria longos anos, até se reformar.

Adélia Costa foi uma das poucas pessoas a visitar o campo de concentração de Alparqueiros para dar apoio aos 3500 soldados portugueses aí detidos durante cinco meses  logo após a invasão de Goa pela União Indiana em 18 de Dezembro de 1961.

Fonte consultada: Boletim da Sociedade Portuguesa de Neurologia nº 1 1990

 

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