“Quando acordou percebeu que a agitação e a embriaguez criativa tinham acabado”

O escritor britânico, Ian McEwan, descreve um sono conturbado no livro Amesterdão: “Às onze e meia estava outra vez diante da partitura, cujas notas agora não paravam quietas, e teve de concordar de si para consigo que estava seriamente embriagado (…) A sua última recordação dessa noite foi erguer o controlo remoto e apontar para o gira-discos. Acordou de madrugada com os auscultadores em cima da cara e uma sede terrível provocada  por sonhos em que atravessava o deserto de gatas, transportando o único piano de cauda dos Tuaregues. Bebeu por uma torneira da casa de banho, enfiou-se na cama e aí ficou durante horas, de olhos abertos no escuro, exausto, desidratado e desperto (…) Quando acordou de um breve sono a meio da manhã, percebeu que a agitação e a embriaguez criativa tinham acabado. Não era apenas estar cansado e de ressaca. Mal se sentou ao piano e tentou umas quantas abordagens à variação, descobriu que não só aquela passagem, mas também todo o movimento tinham morrido nele —  de súbito transformados em cinzas na sua boca. Não se atreveu a pensar demasiado na sinfonia propriamente dita

in Ian McEwan, Amesterdão, editora Gradiva, Lisboa 1999

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