Raskólnikov acorda bilioso e irritadiço

ca. 19th century --- Portrait of Russian novelist Feodor Dostoyevsky (1821-1881). Undated photograph. --- Image by © Bettmann/CORBIS

“Acordou tarde no dia seguinte, depois de um sono que em nada o recompôs. Acordou bilioso, irritadiço, zangado, passando os olhos com ódio pelo cubículo. Era uma sala minúscula, de uns seis passos de comprido, de aspecto miserável com o seu papel de parede amarelo coberto de pó e a deslocar-se, e com o tecto tão baixo que uma pessoa de estatura normal ficava ali dentro com a sensação desagradável de que ia bater com a cabeça no tecto. Os móveis condiziam com o quarto: três cadeiras velhas, em mau estado, uma mesa num canto, pintada, com alguns cadernos e livros: logo pelo pó acumulado em cima deles se via que desde havia muito ninguém lhes tocava; e, finalmente, um grande divâ desajeitado a ocupar quase toda uma parede e metade da largura do quarto; outrora, o divâ fora forrado a chita, mas agora estava em farrapos e servia de cama a Raskólnikov. Muitas vezes dormira nele sem se despir e sem lençóis, cobrindo-se com o seu capote de estudante, velho e gasto, pondo a cabeça numa delgada almofada debaixo da qual punha toda a roupa, tanto limpa como suja, para que a cabeceira ficasse mais alta. Em frente do divã estava uma mesinha”

In “Crime e Castigo”, de Fiódor Dostoiévski, Editorial Presença, Lisboa, 2001