“Sabia todos os tipos de sono”

A escritora Agustina Bessa Luís escreve sobre o sono através de uma personagem do seu romance “Um Cão que Sonha”.

“Dormia com excessiva regularidade. Às onze da manhã, tendo acordado às sete, já tirava uma hora de sono. Assim como às quatro da tarde no Inverno e às duas horas no Verão, tendo fechado os estores onde as moscas ficavam prisioneiras. Provocava a morte com esses sucessivos sonos e achava que um dia permaneceria mergulhado nessa profunda e casta caminhada no silêncio. Nada podia ser-lhe mais protector, para não dizer agradável. Se ele escrevesse um livro, seria o Elogio do Sono, do que sabia muito. Sabia todos os tipos de sono: ligeiros, em que se apercebem os passos que rondam, deslizam, param e esbarram, os  passos duma nova mulher de limpeza pouco habituada à casa e aos seus obstáculos. Os passos de Kátia que chegavam até à cama e onde ela se detinha para o olhar com uma espécie de náusea. Não porque não lhe fosse delicada, mas porque toda a imobilidade a impressionava”.

Um Cão que Sonha, Guimarães Editores, Lisboa 1998