Sergio Tufik, o maior especialista brasileiro em sono: “O medo destrói o sono”

Sergio Tufik

Sergio Tufik, médico brasileiro, especialista em medicina do sono, fundador do Instituto do Sono de São Paulo, diz em entrevista ao  iSleep que as pessoas que dormem pouco têm de tomar consciência que precisam de “dormir o necessário para fazer a homesotase”.  Considera que duas grandes perguntas sobre o sono continuam em aberto. O que é dormir? E por que é que nós dormimos? Tem a convicção que  “a primeira reflexão  da humanidade foi sobre o sono” . Dos portugueses diz que são “os  maiores especialistas em relações humanas”.

Como convencer as pessoas a dormirem mais com tantos estímulos, televisão, internet, redes sociais, bares e discotecas?

Há cada vez mais oportunidades na vida e as pessoas querem dormir menos. Não dá para as convencer a dormirem mais. Mas elas têm que dormir o necessário para fazer a homeostase, viverem bem, ter saúde, não ter imunossupressão, não ficarem “gripadas” o tempo todo, não padecerem de doenças episódicas. Esse é o grande problema, constituindo o maior desafio para a ciência do sono.

O Professor costuma dizer que o medo compromete o sono. Há muitas perturbações de sono que derivam de estados relacionados com a ansiedade e a depressão?  

Sem dúvida alguma, a depressão está completamente ligada aos distúrbios de sono. Inclusivé a diminuição da latência do sono REM é um modo de diagnosticar depressa a doença. No que se refere à ansiedade, é  muito difícil dormir com medo, o sono fica realmente comprometido. O medo destrói o sono.

O Professor diz que os casais de namorados deviam fazer testes do sono antes de contraírem matrimónio…

Não há dúvida nenhuma. O que nós temos hoje como claro é que as mulheres têm muitos problemas de insónia e os homens problemas respiratórios. Então há grandes hipóteses de um homem que ressona muito casar com uma mulher que tem insónia, o que será uma vida terrível. Os  testes deveriam fazer parte dos exames pré-nupciais, para que eles tenham uma vida melhor entre si.

Parece que as vacinas da gripe não surtem efeito se não se dormir bem na noite anterior e posterior à vacina. É assim? Que fenómeno está aqui associado?

É mesmo assim. A maior parte dos idosos tem apneia do sono, o que faz com que tenham privação do sono. Este fato decorre dos muitos despertares durante a noite e isso induz a imunossupressão. Não adianta dar a vacina, porque não vai “pegar”. Já denunciamos várias vezes este problema às autoridades de saúde brasileiras mas estas não tomam providências.

Há países onde a medicina do sono está muito desenvolvida mas noutros dá os primeiros passos. A que se deve este desajustamento?

Penso que depende das pessoas empreendedoras, depende de pessoas que se encantam com esta área. Em todo o mundo há pessoas com apneia do sono, com problemas de fibrilação,  problemas cardíacos, insónia,  movimentos de pernas. A questão é que nalguns países se demora a descobrir estas perturbações e a criar um sistema para que possam ser tratadas.

O Instituto do Sono de São Paulo, do qual foi fundador, tem já 25 anos de existência. Qual o balanço que faz da sua actividade?

A vida das pessoas divide-se em estar a dormir e acordado. E a parte do dormir é muito importante. Na altura da criação do Instituto do Sono ninguém estudava as questões do sono nas Faculdades de Medicina nem se sabia a sua importância. Hoje sim, toda a gente sabe, há formação específica de médicos e técnicos do sono no Brasil, há toda uma cultura que sabe que o sono é essencial. Penso que o Instituto do Sono teve aqui um papel decisivo e isso é para mim muito gratificante.

Os grandes passos da medicina do sono brasileira coincidiram com o retorno à democracia no Brasil em 1985. O Brasil fervilhava nesse ano, quer em termos políticos, quer em termos de movimentos da sociedade civil?  

É uma coincidência. A minha tese sobre o sono é de 1978, quando ainda não existia a perspectiva da medicina do sono. Na década de 1980 começamos aqui no Brasil de maneira empírica, de maneira episódica e só em 1990 se iniciaram os tratamentos e exames médicos do sono. Mesmo assim, ainda hoje, temos que convencer várias especialidades de que o sono tem a ver com a sua especialidade, como acontece com os cardiologistas.

Qual foi o grande avanço científico na medicina do sono?   

No meu entender, o grande acontecimento no sono, já nesta década, foi a polissonografia. Antes dela o que é que nós sabíamos? O doente queixava-se, eu não durmo, eu não durmo, eu não durmo, e nós prescrevíamos um anestésico, depois a pessoa desmaiava. Com a polissonografia tudo mudou. Começámos a descobrir o que acontece durante o sono. Também destacaria, igualmente nesta década, a descoberta da apneia do sono e do CPAP.

Aristóteles escreveu longamente sobre o sono e a vigília. A curiosidade científica sobre o mistério do sono começou muito cedo…  

Penso que começou desde que o homem passou a ter consciência de reflectir. A primeira reflexão da Humanidade foi certamente sobre o sono. Em primeiro lugar o mistério de ficarmos parados quando dormimos. Depois a relação com a morte.  Você dorme, acorda, dorme, acorda, num processo de homeostase do nosso organismo que é dos mais fascinantes. Mas um dia você não acorda mais…

Qual será no futuro a descoberta científica capaz de revolucionar  o estudo do sono e das perturbações do sono?

Acho que duas grandes perguntas sobre o sono continuam em aberto. O que é dormir? E por que é que nós dormimos? Seria uma grande revolução entendê-los. Aí  teríamos o controlo do sono e como  adaptá-lo.

Hoje muitos me pedem se dá para dormir menos porque todo o mundo quer viver mais. Deixam de fazer muitas coisas por  dormirem metade ou um terço da vida  e perguntam-me: não dá para dormir só duas ou três horas e concentrar as fases reparadoras para viver mais e melhor? Essa seria também uma grande revolução.

Pode contar-nos alguma história curiosa relacionada com o sono ou a falta dele de um paciente que tenha tratado?

O que mais complica a relação com os pacientes é a questão da percepção do sono. Há muitas pessoas que têm a percepção de que não dormiram nada e na prática dormiram. Tenho vários doentes que dizem nas minhas consultas que não dormem. Mas depois fazem exames no nosso laboratório e eu vejo que dormiram durante seis horas. Mostro-lhes os resultados em como dormiram e o paciente fica muito irritado, sente-se injuriado por eu estar a  dizer-lhe uma coisa que não é verdade. É um choque com o médico. Há casos em que a pessoa não só dormiu como fez a fase 1, 2, 3, 4 do sono, fez o sono REM, fez o sono DELTA …

O Professor diz que “a vida é a arte de resolver problemas”. Como se ensina este segredo, de forma a que as pessoas vivam mais felizes?

Primeiro eu diria que as pessoas se irritam porque têm problemas. O primeiro dos meus conselhos é o de nunca se irritar por ter problemas, porque a vida é problemas o tempo todo. Fique satisfeito de ter e tentar resolver os problemas. Quanto mais os resolver mais feliz você será.  Em relação ao sono,  este é dos mais importantes comportamentos que temos para fazer a homeostase no nosso organismo.  Temos que conhecer como é que o sono funciona, a que horas se inicia, quantas horas é que temos de dormir para estar bem.  Esta é uma descoberta pessoal de cada um, saber qual é a sua janela do sono. É uma aprendizagem fundamental que traz muito equilíbrio na vida.

Penso que conhece Portugal? O que acha do nosso país?  

Bom, como sou brasileiro evidentemente que herdei a cultura portuguesa. É lógico que adoro Portugal, desde a parte culinária que me agrada muito, à parte afectiva dos portugueses. Considero os portugueses os  maiores especialistas em relações humanas. Sempre disse que a tecnologia portuguesa de “mixar” povos é fundamental.  Você observa os EUA naquela postura anglo-saxã e não vê esta capacidade de se  relacionarem. Os portugueses vieram para o Brasil e começaram a misturar-se com todos, negros, caboclos, índios. É essa  cultura que até hoje permanece no Brasil.  Então, logicamente eu tenho uma visão excelente dos portugueses, o máximo em afectividade, relações sociais e humanas.

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