W. G. Sebald: “Só adormeci já de manhã, com o pio de um melro no ouvido”

Sebald

“Ouvi estalar e gemer as traves dos velhos madeiramentos que se tinham dilatado com o calor do dia e se contraíam alguns milímetros. Às escuras no quarto desconhecido, os meus olhos orientaram-se involuntariamente na direcção de onde vinham os barulhos, procuraram a racha que devia cruzar o tecto baixo, o sítio onde a cal descascava a parede ou onde o reboco escorrera para os apainelados. E quando fechei os olhos por momentos, tive a impressão de estar deitado num camarote a bordo de um navio, de que navegávamos no alto mar, toda a casa levantada na crista de uma onda tremia um pouco lá em cima e caía ao fundo com um gemido. Só adormeci já de manhã, com o pio de um melro no ouvido, e acordei logo a seguir de um sonho em que via Fitzgerald, meu companheiro da véspera, em mangas de camisa e jabot de seda preta, uma cartola na cabeça, sentado a uma mesa de metal azul. À sua volta floriam malvas mais altas que um homem, umas galinhas debicavam num buraco com areia sob um pé de sabugeiro e Bletsoe, o cão preto, estava deitado à sombra. Eu, porém, sem que me visse no sonho, ou seja, como um fantasma, estava sentado em frente a Fitzgerald e jogava com ele uma partida de dominó”

 

in Os Anéis de Saturno, W. G. Sebald, Editorial Teorema, Lisboa 2006

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