“Só de madrugada adormeceu, esmagando o rosto suado contra o travesseiro”

Urbano Tavares Rodrigues descreve a insónia de uma das personagens no seu romance “Noite Roxa”:

Por fim, levantou-se, declarou que se sentia incomodado, deu as boas noites às duas mulheres e recolheu, a querer afastar-se de si, cambaleante e envergonhado, ao quarto que o esperava em desordem. Despiu-se rapidamente. Em vez de colocar o fato num cabide de armário, deixou a roupa espalhada pela mesa, sobre as cadeiras, deitou-se, e cobriu a cabeça com o lençol. Cerrava os dentes, de descontentamento. Queria adormecer, mas uma dor na testa, pertinaz, proibia o sono de o envolver. Tudo era fumo, queda, vazio debaixo dele, depois a dor novamente, apoleante, a náusea, e todo o cortejo dos seus fracassos, a maré lodosa do passado, a imagem múltipla do irremediável, sarabanda ruiva. Ouviu as horas na igreja comemorativa, punhadas de bronze na noite hostil. Só de madrugada adormeceu, esmagando o rosto suado contra o travesseiro.

In Urbano Tavares Rodrigues, a Noite Roxa, editora Dom Quixote

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