“O sono em que me agasalho remedeia tudo”

O escritor Mário Cláudio faz um registo íntimo do sono na voz de uma das personagens do seu romance “Camilo Broca”:  “assim é que lentamente vou resvalando para o sono. Dona do meu reino, estico os dedos, e toco a chave do poema perfeito . As palavras destacam-se da bruma, e articulam-se numa cadeia de ouro, e as frases sucedem-se na ordem que nenhuma hesitação ameaçará. Escritos desde o princípio dos tempos, os versos cintilam na nitidez dos astros avistados por uma pastora muito jovem, acabada de nascer para todas as maravilhas. Não subsiste o erro, nem o soluço, nem a maldição. A frondosíssima árvore estende os braços, e não resta episódio de família por contar, nem data alterada, nem rosto esquecido, ou trocado, nem novela, nem história. Segura como as aves que abraçaram o rumo da migração, a mão liberta-se das dores que a tolhiam, e traça linhas regulares que desembocam noutras linhas, retomam o rasto cadentes, e se inscrevem no perpétuo movimento das esferas. Quem disse que me ataram os pulsos, que me sufocaram na garganta e fala que trazia, e que me vedaram um horizonte para além do horizonte? O sono em que me agasalho remedeia tudo, ventre que gira como um planeta transparente, reduzindo os dias a horas, as horas a minutos, os minutos a segundos, e os segundos ao relâmpago que ilumina a peregrinação”.

in Mário Cláudio, Camilo Broca, Editora Dom Quixote, Lisboa 2006

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