Um sonho de José Saramago

 

JoseSaramago

“De há uns dias para cá que anda a frequentar-me, de modo  recorrente, obsessivo, um sonho que é, creio eu, uma variante de um outro que muitas vezes sonhei em tempos passados. Nessa época , o sonho consistia em estar folheando, passando sucessivas páginas impressas, muitas páginas, que eu saiba terem sido escritas por mim, mas que não conseguia ler, embora não houvesse dúvida de que se tratava de palavras portuguesas. A diferença, agora, é que as palavras são de uma língua que parece portuguesa, ou, melhor dizendo, no meu sonho tenho a certeza de que as palavras são portuguesas, todas elas, mas encontro-as deformadas, há letras que vejo estarem ali no lugar doutras, porém não consigo ver que palavra foi, por este processo, escondida no interior daquela que os olhos vêem. De tudo isto resulta um forte sentimento de inquietação, tantalizante, que roça a angústia, como alguém que, no limiar de uma porta, fizesse esforços contínuos para entrar, sem o conseguir… A análise mais óbvia deste sonho não deixaria de explicá-lo como consequência de eu estar vivendo rodeado de castelhano por todos os lados, como uma ilha no centro de outra ilha, mas a curiosa verdade é que nenhuma dessas palavras enigmáticas me parece espanhola. No caso de o sonho voltar, procurarei estar atento, a ver se percebo melhor o que tudo isto significa, mas o mais provável , depois do que aqui fica escrito (se os psicanalistas têm razão), é que o sonho não volte ….”

in José Saramago, Cadernos de Lanzarote, Diário-II, Editorial Caminho

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