“Vejo nadar na palidez da noite o rectângulo da janela”

O Prémio Nobel da Literatura, Hermann Hesse, nascido na Alemanha mas naturalizado suíço, escreve sobre uma noite de insónia no seu livro “Contos de Amor”

“Vou então para a cama no quarto ao lado que está frio, sem saber porquê, porque não consigo dormir muito. Vejo nadar na palidez da noite o rectângulo da janela, o lavatório branco, um quadro branco por cima da cama, oiço a tempestade raivar no telhado e tremer nas janelas, oiço o arfar das árvores, a queda da chuva chicoteada, a minha respiração, o leve pulsar do meu coração. Abro os olhos, volto a fechá-los; tento pensar no que ando a ler, mas não consigo. Em vez disso penso em outras noites, em dez, vinte noites passadas, em que estava igualmente deitado, com a mesma janela a brilhar e o leve pulsar do meu coração a contar as horas pálidas, ilusórias. Assim passam as noites”

In Hermann Hesse, Contos de Amor, editora Difel, Lisboa 2009

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